Vias urinárias

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As vias urinárias dos mamíferos domésticos são constituídas pelos ureteres, bexiga urinária e uretra, formando um sistema contínuo responsável pela condução, armazenamento e eliminação da urina produzida pelos rins. Embora não participem da formação do filtrado urinário, esses órgãos desempenham papel essencial na manutenção da homeostase hídrica ao garantir que a urina seja transportada e eliminada de forma eficiente, sem comprometer a integridade dos tecidos.

A compreensão das especializações histológicas e das variações entre espécies permite entender como a estrutura das vias urinárias sustenta suas funções fisiológicas.


Organização histológica geral das vias urinárias

Antes de abordar especificamente as vias urinárias, é importante recordar o plano geral de organização dos órgãos ocos e tubulares. Tradicionalmente, sua parede é descrita em quatro túnicas: mucosa, submucosa, muscular e adventícia ou serosa. A túnica mucosa é composta por epitélio de revestimento, lâmina própria e, quando presente, lâmina muscular da mucosa. A túnica submucosa é formada por tecido conjuntivo que abriga vasos de maior calibre e contribui para a sustentação da parede. Em órgãos que não apresentam lâmina muscular da mucosa bem definida, não há delimitação nítida entre lâmina própria e submucosa. Nesses casos, pode-se utilizar o termo própria-submucosa para designar o tecido conjuntivo contínuo que se estende da membrana basal até a túnica muscular. Do ponto de vista funcional, em muitos órgãos submetidos à distensão ou estresse mecânico, a lâmina própria tende a apresentar tecido conjuntivo mais frouxo e celular, permitindo mobilidade e amortecimento do epitélio. A submucosa, por sua vez, costuma apresentar organização conjuntiva relativamente mais densa, conferindo maior resistência estrutural. Nas vias urinárias, essa organização estrutural da parede reflete a necessidade de combinar impermeabilidade, distensibilidade e capacidade contrátil.

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Túnica mucosa

A túnica mucosa é revestida por epitélio de transição (urotélio), um epitélio estratificado especializado que permite ampla variação de volume sem perda da função de barreira. Abaixo do epitélio encontra-se uma lâmina própria-submucosa formada por tecido conjuntivo frouxo, rica em fibras elásticas, que contribuem para a elasticidade da parede. Esta camada não é tratada de forma separada (lâmina própria da túnica mucosa e túnica submucosa) porque elas são contínuas, sem delimitação por uma lâmina muscular.

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Túnica muscular

A túnica muscular é constituída por músculo liso, geralmente organizado em três camadas pouco delimitadas: longitudinal interna, circular média e longitudinal externa. Essa disposição permite contrações coordenadas ao longo do órgão.

Nos ureteres, essa organização favorece a geração de ondas peristálticas, responsáveis pelo transporte ativo da urina até a bexiga. Na bexiga urinária, o conjunto da musculatura lisa recebe a denominação de músculo detrusor, cuja contração uniforme é fundamental para a eliminação do conteúdo vesical.

Túnica adventícia ou serosa

Externamente, a maioria das vias urinárias é revestida por uma túnica adventícia de tecido conjuntivo frouxo, que fixa os órgãos às estruturas adjacentes. Nas porções voltadas para a cavidade peritoneal, como o corpo e o ápice da bexiga urinária, essa camada é substituída por uma serosa (peritônio), que reduz o atrito com os órgãos vizinhos.


Aspectos fisiológicos das vias urinárias

Condução da urina: Ureteres

A condução da urina pelos ureteres ocorre de forma ativa, independentemente da gravidade. As ondas peristálticas geradas pela túnica muscular impulsionam a urina em direção à bexiga, assegurando um fluxo unidirecional e contínuo.

Essa função depende diretamente da organização da musculatura lisa e da integridade do urotélio, que protege a parede ureteral da urina transportada.

Armazenamento da urina: Bexiga urinária

A bexiga urinária atua como um reservatório altamente distensível. Durante o enchimento, a parede vesical se adapta ao aumento de volume com elevação mínima da pressão interna, especialmente nas fases iniciais.

Essa propriedade resulta da combinação entre a capacidade de distensão do urotélio, a presença de fibras elásticas na lâmina própria e a disposição da musculatura lisa do detrusor.

Eliminação da urina: Uretra

A uretra é o segmento terminal das vias urinárias, conduzindo a urina da bexiga ao meio externo. Na fêmea, sua função é exclusivamente urinária. No macho, a uretra desempenha papel urogenital, conduzindo tanto a urina quanto o sêmen e as secreções das glândulas acessórias.


Continência urinária

A continência urinária durante o enchimento da bexiga é garantida por dois mecanismos complementares: a tensão passiva de elementos elásticos presentes na mucosa do colo vesical; e a contração do esfíncter uretral externo, constituído por músculo esquelético sob controle voluntário.

Esses componentes estruturais asseguram a retenção da urina até o momento adequado para a eliminação.


Relações estrutura-função nas vias urinárias

Urotélio e distensibilidade

As células superficiais do urotélio apresentam grande plasticidade morfológica. Quando a bexiga está vazia, essas células possuem formato mais globoso; à medida que o órgão se distende, tornam-se achatadas e delgadas, lembrando um epitélio pavimentoso. Essa adaptação preserva a função de barreira e permite a expansão do órgão sem lesão dos tecidos subjacentes.


Mecanismo de válvula ureterovesical

A junção ureterovesical corresponde à região em que o ureter penetra obliquamente a parede da bexiga urinária, formando um trajeto intramural que desempenha papel essencial na prevenção do refluxo vesicoureteral em animais domésticos. Do ponto de vista fisiológico, esse trajeto oblíquo permite que o aumento da pressão intravesical durante o enchimento e, principalmente, durante a micção comprima o segmento intramural do ureter, funcionando como um mecanismo valvular passivo. O epitélio de transição (urotélio) é contínuo entre ureter e bexiga, enquanto a camada muscular lisa do ureter sofre modificação gradual ao se integrar à musculatura detrusora, sem a formação de um esfíncter anatômico verdadeiro. 


Nota de espécie

No cavalo, as glândulas produtoras de muco presentes na pelve renal e no ureter proximal desempenham papel funcional ao facilitar a eliminação de carbonatos e fosfatos precipitados. O muco atua como veículo para esses sais, prevenindo seu acúmulo nas vias urinárias superiores.


Trígono vesical

O trígono vesical localiza-se na base da bexiga, delimitado pelas aberturas dos dois ureteres e pelo óstio uretral interno. Diferentemente do restante da mucosa vesical, essa região é mais lisa e apresenta menor capacidade de distensão, sendo associada à sensibilidade à distensão vesical, importante para o controle do enchimento.


Uretra masculina e tecido erétil

Na uretra masculina, especificamente a uretra peniana, a submucosa abriga um plexo venoso abundante que forma o corpo esponjoso. Essa estrutura contribui para a continência urinária e, durante a ereção, evita o colabamento da uretra pela compressão dos corpos cavernosos, mantendo o lúmen livre para a passagem do sêmen.