A resolução do dano a um tecido não termina com a interrupção do sangramento. Depois da injúria, o organismo precisa lidar com as células danificadas, controlar a resposta inflamatória e restaurar, na medida do possível, a estrutura e a função do tecido.
A reparação tecidual corresponde ao conjunto de processos que ocorre após uma lesão com o objetivo de restaurar a integridade do tecido. Ela pode ocorrer por regeneração, quando o tecido lesionado é substituído por células do mesmo tipo, ou por cicatrização, quando a restauração ocorre predominantemente pela formação de tecido conjuntivo.
Esses processos não são necessariamente excludentes. Dependendo das características da lesão e do tecido, regeneração e cicatrização podem ocorrer simultaneamente, em diferentes proporções.
Regeneração e cicatrização
A capacidade de regeneração varia entre os diferentes tecidos e está relacionada, entre outros fatores, à capacidade proliferativa de suas células. Tradicionalmente, as células são classificadas em três grupos: lábeis, que apresentam proliferação contínua; estáveis, que normalmente permanecem em estado quiescente quanto à capacidade mitótica, mas podem proliferar em resposta a estímulos; e perenes ou permanentes, que apresentam capacidade proliferativa muito limitada ou ausente após a diferenciação.
Entretanto, a capacidade de reparação não depende apenas do tipo celular. Também são importantes:
Assim, uma lesão pequena e superficial pode ser completamente regenerada, enquanto uma lesão extensa, que destrói a arquitetura do tecido ou compromete sua irrigação, tende a exigir maior participação da cicatrização.
Fases da reparação tecidual
A reparação é um processo contínuo, e suas etapas se sobrepõem no tempo. Para facilitar sua compreensão, podemos dividi-la em quatro fases:
1. Hemostasia
É a resposta inicial à lesão vascular. Ocorrem vasoconstrição, ativação plaquetária e coagulação, culminando na formação do coágulo. Além de controlar o sangramento, o coágulo constitui uma estrutura provisória sobre a qual os eventos posteriores da reparação podem ocorrer.
2. Inflamação
A lesão desencadeia uma resposta inflamatória, com alterações vasculares e recrutamento de células do sistema imune. Inicialmente, há participação importante de polimorfonucleares (PMN), especialmente neutrófilos. Posteriormente, os macrófagos assumem papel importante na remoção de restos celulares e na coordenação da transição para as etapas seguintes da reparação.
3. Proliferação
Com o controle da lesão e da resposta inflamatória, ocorre a formação de novo tecido. Entre os processos característicos dessa fase estão a fibroplasia, a angiogênese e a contração da ferida. A fibroplasia corresponde à proliferação e à atividade dos fibroblastos, com produção de componentes da matriz extracelular, especialmente colágeno, contribuindo para a formação do tecido cicatricial. Ao mesmo tempo, quando a capacidade regenerativa do tecido é preservada, pode ocorrer proliferação das células remanescentes e recuperação da estrutura original.
Durante essa fase, forma-se o chamado tecido de granulação, constituído por tecido conjuntivo em formação, rico em capilares recém-formados, fibroblastos e células inflamatórias. É um tecido provisório, característico da fase proliferativa da reparação, que fornece suporte e nutrientes para a formação do novo tecido e posteriormente é remodelado.
4. Remodelação ou maturação
Na fase final, o tecido recém-formado é reorganizado e amadurece. O tecido conjuntivo formado durante a reparação é remodelado, e sua organização passa a refletir progressivamente as demandas mecânicas e funcionais do local.
Tecido cicatricial
Quando as condições para uma regeneração não são suficientemente supridas para restaurar a arquitetura original do tecido, a reparação envolve a formação de tecido cicatricial, constituído predominantemente por tecido conjuntivo rico em fibras de colágeno. O tecido cicatricial funciona como uma estrutura de sustentação que restabelece a continuidade e a resistência mecânica do tecido, preenchendo a área que não pôde ser regenerada.
A formação de tecido cicatricial, entretanto, não representa uma simples reposição do tecido original. Sua composição e organização são diferentes das do tecido previamente existente e, por isso, a cicatriz pode apresentar propriedades estruturais e funcionais distintas das do tecido normal.
Durante a reparação, a contração da ferida reduz progressivamente a área que precisa ser preenchida. Esse processo depende principalmente da ação dos miofibroblastos, células que apresentam características semelhantes às dos fibroblastos e das células musculares lisas e são capazes de gerar força contrátil. A contração aproxima as bordas da ferida, contribuindo para seu fechamento e reduzindo a quantidade de tecido que precisa ser formada.