A circulação precisa atender simultaneamente a duas necessidades. É necessário manter pressão arterial suficiente para garantir a perfusão dos tecidos e, ao mesmo tempo, distribuir o fluxo sanguíneo de acordo com as necessidades de cada órgão. Essas necessidades podem variar intensamente conforme a situação fisiológica. Durante o repouso, por exemplo, o fluxo destinado ao músculo esquelético é relativamente moderado; durante o exercício, a atividade muscular aumenta e exige maior oferta de oxigênio e nutrientes. Após uma refeição, durante exposição ao frio ou ao calor, diante de uma hemorragia ou durante uma resposta de estresse, a distribuição do sangue precisa ser novamente ajustada.
O controle da circulação resulta da integração de mecanismos que atuam em diferentes escalas de tempo e espaço. Mecanismos locais regulam o fluxo de cada tecido de acordo com suas necessidades; mecanismos neurais e hormonais coordenam respostas envolvendo diferentes órgãos; e mecanismos mais lentos, especialmente aqueles relacionados aos rins e ao balanço de água e sódio, participam da manutenção do volume sanguíneo e da pressão arterial. A circulação não depende, portanto, de um único centro de controle. Ela resulta da interação entre coração, vasos sanguíneos, sistema nervoso, sistema endócrino, rins e tecidos periféricos.
Pressão arterial, débito cardíaco e resistência vascular. Entre as principais variáveis que precisam ser reguladas estão a pressão arterial, o débito cardíaco e a resistência vascular. A pressão arterial representa uma das principais forças responsáveis por impulsionar o sangue através dos tecidos. O débito cardíaco corresponde ao volume de sangue bombeado pelo coração por unidade de tempo e depende da frequência cardíaca e do volume sistólico:
DC = FC × VS
Entretanto, manter um débito cardíaco adequado não é suficiente. É necessário também determinar para onde o sangue será enviado. Diferentes órgãos apresentam necessidades distintas e modificam sua demanda conforme a situação fisiológica. As arteríolas desempenham papel central nesse processo porque suas células musculares lisas podem alterar significativamente o calibre vascular e, com isso, modificar a resistência oferecida ao fluxo.
Regulação local do fluxo. Cada tecido possui mecanismos capazes de ajustar sua própria perfusão. Esse controle é particularmente importante porque as necessidades metabólicas não são iguais entre os órgãos e podem variar rapidamente dentro de um mesmo órgão. Quando a atividade metabólica de um tecido aumenta, o consumo de oxigênio e a produção de metabólitos também aumentam. Alterações na concentração de oxigênio, dióxido de carbono, íons hidrogênio, adenosina, potássio e outros mediadores podem promover relaxamento do músculo liso vascular, produzindo vasodilatação arteriolar, redução da resistência e aumento do fluxo sanguíneo.
Esse mecanismo é especialmente importante no músculo esquelético durante o exercício e no miocárdio durante o aumento da atividade cardíaca. Nesses casos, o aumento do fluxo não ocorre simplesmente porque o sistema nervoso determina que mais sangue deve chegar ao tecido. O próprio tecido produz sinais capazes de modificar localmente a resistência vascular. O aumento do fluxo decorrente do aumento da atividade metabólica é denominado hiperemia ativa.
A hiperemia reativa ocorre quando o fluxo sanguíneo para determinado tecido é temporariamente reduzido ou interrompido. Durante esse período, ocorre alteração das condições metabólicas locais e acúmulo de substâncias vasodilatadoras. Quando o fluxo é restabelecido, ocorre um aumento transitório da perfusão, que contribui para restaurar as condições metabólicas do tecido.
Regulação miogênica. Os vasos também podem responder diretamente às alterações mecânicas produzidas pela pressão. Quando a pressão dentro de uma arteríola aumenta, a parede vascular sofre maior estiramento. As células musculares lisas podem responder a esse estiramento com contração, aumentando a resistência vascular. Quando a pressão diminui, ocorre redução do estiramento e tendência ao relaxamento. Essa resposta miogênica contribui para a capacidade de determinados órgãos de manter o fluxo relativamente estável apesar das alterações da pressão arterial. Esse mecanismo de autorregulação é particularmente importante no encéfalo e nos rins, nos quais a manutenção relativamente constante da perfusão é fundamental para a função.
Controle neural da circulação. Embora a regulação local seja essencial, o organismo também precisa coordenar a circulação como um todo. Essa tarefa envolve principalmente o sistema nervoso autônomo. O sistema nervoso central recebe informações provenientes de receptores capazes de detectar alterações mecânicas e químicas do meio interno e integra essas informações em circuitos que coordenam respostas autonômicas sobre o coração e os vasos. O tronco encefálico constitui uma região fundamental dessa integração cardiovascular.
O sistema simpático exerce importante influência sobre a circulação. Sua ativação pode aumentar a frequência e a força de contração cardíacas e promover vasoconstrição em diversos leitos vasculares. O efeito final depende, entretanto, do órgão envolvido e do contexto fisiológico. A distribuição da inervação autonômica não é uniforme entre todos os vasos, e a regulação neural pode atuar simultaneamente aos mecanismos locais.
O sistema parassimpático exerce efeito mais evidente sobre o coração, especialmente reduzindo a frequência cardíaca. Sua influência direta sobre a maioria dos vasos sanguíneos sistêmicos é muito menor que a do sistema simpático.
Assim, a regulação neural da circulação não é uma ação uniforme sobre todos os vasos, mas como a combinação de diferentes mecanismos que atuam de acordo com o território vascular e com as condições fisiológicas.
Barorreflexo arterial. Um dos mecanismos mais importantes para o controle rápido da pressão arterial envolve os barorreceptores, mecanorreceptores localizados principalmente no seio carotídeo e no arco aórtico. Esses receptores respondem ao estiramento da parede arterial. Quando a pressão arterial aumenta, o estiramento aumenta e a frequência de disparo dos barorreceptores também aumenta. As informações são conduzidas ao sistema nervoso central, onde modificam a atividade autonômica.
O aumento da pressão arterial tende, assim, a produzir aumento da atividade dos barorreceptores, redução da atividade simpática e aumento da atividade parassimpática, levando à redução da frequência cardíaca, da contratilidade e da resistência vascular e, consequentemente, à redução da pressão arterial. Quando a pressão arterial diminui, ocorre o processo inverso. O barorreflexo é particularmente importante para corrigir alterações rápidas da pressão, como aquelas produzidas por mudanças de postura ou por perda aguda de sangue. Sua função é predominantemente de controle de curto prazo, não constituindo o principal mecanismo responsável pela manutenção da pressão arterial durante períodos prolongados.
Reflexo atrial ou reflexo de Bainbridge. O coração também participa da regulação cardiovascular por meio de receptores sensíveis ao seu próprio grau de enchimento. Quando o retorno venoso aumenta, cresce a quantidade de sangue que chega aos átrios e ocorre maior estiramento de suas paredes. Essa alteração é detectada por mecanorreceptores cardiopulmonares, cujas aferências seguem principalmente pelo nervo vago até o sistema nervoso central. A resposta reflexa tende a aumentar a frequência cardíaca, principalmente pela redução da influência vagal sobre o nó sinoatrial e, em determinadas condições, pela participação do sistema simpático.
Esse mecanismo é denominado reflexo atrial e contribui para ajustar a frequência cardíaca ao aumento do retorno venoso. Ele pode ser compreendido em conjunto com o mecanismo de Frank-Starling estudado na regulação do coração: o aumento do retorno venoso pode aumentar o volume diastólico final e, por meio do mecanismo de Frank-Starling, aumentar a força de contração, enquanto o estiramento atrial pode produzir uma resposta reflexa que aumenta a frequência cardíaca. Assim, uma mesma alteração da circulação pode modificar o desempenho cardíaco por mecanismos intrínsecos e reflexos.
O barorreflexo arterial e o reflexo atrial não devem ser confundidos. Os barorreceptores arteriais respondem principalmente ao estiramento produzido pelas alterações da pressão nas grandes artérias. Já o reflexo atrial está relacionado ao aumento do enchimento e do estiramento das regiões cardiopulmonares, especialmente dos átrios. Os dois mecanismos podem atuar simultaneamente, e a resposta cardiovascular observada resulta da integração dessas diferentes informações.
Quimiorreceptores. Além dos receptores mecânicos, existem quimiorreceptores periféricos, localizados principalmente nos corpos carotídeos e aórticos, capazes de detectar alterações na composição química do sangue. Eles respondem especialmente a alterações importantes de oxigênio, dióxido de carbono e pH. Sua participação é particularmente evidente durante hipóxia, hipercapnia ou acidose. Embora sua função mais conhecida esteja relacionada à regulação da respiração, os quimiorreceptores também podem influenciar respostas cardiovasculares por meio da modulação da atividade autonômica.
Integração central. O controle cardiovascular não está restrito ao tronco encefálico. Estruturas superiores do sistema nervoso central, especialmente o hipotálamo, integram informações cardiovasculares com respostas relacionadas à temperatura corporal, ao comportamento, ao estresse, à ingestão de água e alimentos e ao estado energético. Essa integração permite que alterações circulatórias façam parte de respostas fisiológicas mais amplas. Durante uma situação de estresse, por exemplo, circuitos centrais podem aumentar a atividade simpática e modificar simultaneamente a frequência cardíaca, a contratilidade, a resistência vascular e a distribuição regional do fluxo.
Durante a exposição ao calor, por outro lado, o organismo precisa aumentar a dissipação térmica. A circulação cutânea pode receber maior fluxo, enquanto outros leitos vasculares são ajustados para preservar a pressão arterial e a perfusão de órgãos essenciais. O controle cardiovascular, portanto, não consiste apenas em manter um determinado valor de pressão arterial, mas em adaptar continuamente a circulação às condições do organismo.
Controle hormonal. Diversos hormônios e mediadores circulantes influenciam o coração e os vasos. Entre eles, destacam-se as catecolaminas adrenalina e noradrenalina, que podem ser liberadas na circulação pela medula adrenal. Seus efeitos dependem dos receptores presentes nos diferentes tecidos. A adrenalina pode aumentar a frequência e a contratilidade cardíacas por meio de receptores β₁ e, quando presente em concentrações suficientes, promover vasodilatação em determinados territórios, especialmente na musculatura esquelética, por meio de receptores β₂. A noradrenalina apresenta efeito vasoconstritor mais pronunciado em muitos territórios, principalmente por ação sobre receptores α₁.
(Nota: Adrenalina e noradrenalina também participam da comunicação do sistema nervoso simpático, podendo atuar como neurotransmissores.)
O sistema renina-angiotensina-aldosterona participa especialmente da regulação cardiovascular quando ocorre redução da perfusão renal ou outros estímulos apropriados. O rim libera renina, iniciando uma cascata que culmina na formação de angiotensina II. A angiotensina II promove vasoconstrição e estimula a secreção de aldosterona. A aldosterona aumenta a retenção renal de sódio e, consequentemente, favorece a retenção de água. Esse sistema atua, portanto, tanto sobre a resistência vascular quanto sobre o volume circulante.
O hormônio antidiurético (ADH ou vasopressina) também participa da regulação do equilíbrio hídrico e, em concentrações elevadas, pode produzir vasoconstrição. Em sentido oposto, os peptídeos natriuréticos, liberados principalmente pelo coração em resposta ao estiramento de suas câmaras, favorecem a eliminação renal de sódio e água e apresentam efeitos vasodilatadores. Dessa forma, o próprio coração atua como órgão endócrino na regulação do volume e da pressão circulantes.
Rins e controle de longo prazo. Se o sistema nervoso é particularmente importante para corrigir alterações rápidas da pressão, os rins desempenham papel central na manutenção da pressão arterial ao longo de períodos mais prolongados. A pressão arterial está intimamente relacionada ao volume de líquido presente no sistema circulatório, e o rim consegue modificar esse volume ao alterar a quantidade de água e sódio eliminada na urina.
Quando o organismo retém sódio e água, o volume extracelular tende a aumentar. Isso pode aumentar o retorno venoso, o débito cardíaco e, consequentemente, contribuir para a elevação da pressão arterial. Quando a eliminação de água e sódio aumenta, o volume circulante tende a diminuir. O rim participa, portanto, simultaneamente do controle do volume circulante e da regulação hormonal da pressão arterial.
Distribuição regional do fluxo. O organismo não distribui o sangue de maneira equivalente entre todos os tecidos em todas as circunstâncias. Em situações de redução importante do débito cardíaco ou do volume circulante, determinados órgãos são relativamente priorizados. O encéfalo apresenta mecanismos sofisticados de autorregulação capazes de manter sua perfusão dentro de determinada faixa de pressão arterial. O miocárdio também precisa manter sua perfusão porque o próprio coração depende de oxigênio para produzir a força que mantém a circulação. Os rins recebem fluxo elevado em condições normais, relacionado às suas funções de filtração e regulação do meio interno, mas esse fluxo pode ser reduzido durante determinadas situações de redução do volume circulante.
Durante o exercício, a integração dos mecanismos de controle torna-se particularmente evidente. O aumento da atividade muscular eleva a demanda por oxigênio e nutrientes e aumenta a produção de metabólitos, promovendo vasodilatação local e aumento do fluxo para o músculo ativo. Simultaneamente, a atividade simpática aumenta a frequência cardíaca e a contratilidade, enquanto o retorno venoso é favorecido. O débito cardíaco aumenta e o fluxo é redistribuído entre os diferentes leitos vasculares.
Se o exercício ocorre em ambiente quente, surge ainda a necessidade de dissipar calor. A circulação cutânea pode aumentar, criando uma situação na qual manutenção da pressão arterial, perfusão muscular e termorregulação precisam ser conciliadas. O resultado final depende da integração entre mecanismos locais, neurais, hormonais e renais.
A regulação da circulação é, portanto, um sistema integrado de controle de pressão, débito e distribuição do fluxo. Os tecidos ajustam localmente sua própria perfusão; o sistema nervoso coordena respostas rápidas; reflexos como o barorreflexo e o reflexo atrial relacionam alterações mecânicas da circulação às respostas autonômicas; hormônios modificam a função cardíaca, o calibre vascular e o volume circulante; e os rins participam do controle de longo prazo. Nenhum desses mecanismos atua isoladamente. A circulação funciona adequadamente porque diferentes níveis de controle se complementam continuamente para ajustar o fluxo às necessidades de cada tecido e do organismo como um todo.