A micção corresponde ao processo fisiológico de esvaziamento da bexiga urinária e representa a etapa final da função excretora do sistema urinário. Nos mamíferos domésticos, trata-se de um ato altamente coordenado, resultante da integração entre estruturas musculares especializadas, revestimento epitelial adaptável e circuitos neurais autonômicos e somáticos, que permitem alternar de forma precisa entre as fases de armazenamento e eliminação da urina.
Bases anatômicas e histológicas da micção
Músculo detrusor
A parede da bexiga urinária é formada predominantemente pelo músculo liso detrusor, organizado em três lâminas musculares que se intercruzam. Essa disposição tridimensional permite uma contração uniforme da parede vesical, essencial para o aumento da pressão intravesical durante o esvaziamento. No colo da bexiga, as fibras do detrusor apresentam uma orientação que, ao se contraírem, encurtam e alargam o orifício uretral, reduzindo a resistência ao fluxo urinário.
Esfíncteres uretrais
A transição entre bexiga e uretra é controlada por dois esfíncteres com composições histológicas e funções distintas:
Esfíncter uretral interno: Localizado no colo da bexiga, é constituído por músculo liso associado a tecido elástico, atuando de forma involuntária. Sua estrutura favorece a manutenção do fechamento do colo vesical durante a fase de enchimento.
Esfíncter uretral externo: Formado por músculo esquelético (estriado), circunda a uretra distalmente ao colo vesical. Representa o limite funcional entre a bexiga e a uretra e permite o controle voluntário da micção.
Essa diferença histológica reflete a distinção fisiológica entre os mecanismos involuntários e voluntários envolvidos no processo.
Urotélio e adaptação ao volume
O lúmen da bexiga e da uretra proximal é revestido por epitélio de transição (urotélio), cuja morfologia varia conforme o grau de distensão do órgão. Com a bexiga vazia, as células superficiais apresentam aspecto mais espesso e empilhado; durante o enchimento, tornam-se achatadas e delgadas, permitindo grande aumento de volume sem perda da função de barreira.
Essa plasticidade estrutural do urotélio contribui para a detecção do estiramento vesical e para a proteção dos tecidos subjacentes durante as variações de pressão.
Mecanismos fisiológicos do reflexo da micção
A micção é controlada por um reflexo neural ativado pelo enchimento da bexiga e integrado no segmento sacral da medula espinal e no tronco encefálico.
Fase de preenchimento
Durante o enchimento vesical, receptores de estiramento presentes na parede muscular são gradualmente ativados. Nesta fase, predomina a ação do sistema nervoso simpático, conduzida pelo nervo hipogástrico: estimulação de receptores alfa no colo da bexiga, mantendo o esfíncter interno fechado; inibição do músculo detrusor por meio de receptores beta, permitindo o relaxamento da parede e o acúmulo de urina.
A estrutura muscular lisa e elástica da bexiga é, portanto, essencial para acomodar o volume crescente sem desencadear o reflexo de esvaziamento.
Fase de esvaziamento
Quando o volume vesical atinge um limiar crítico, ocorre a ativação do centro sacral da micção: o sistema parassimpático, via nervo pélvico, promove a contração do músculo detrusor, sendo esta a única via motora direta para essa musculatura; simultaneamente, há inibição da atividade simpática no colo da bexiga e da inervação somática do esfíncter externo, reduzindo a resistência ao fluxo urinário. Essa coordenação garante que a contração do detrusor seja acompanhada pela abertura funcional da via de saída. No início do esvaziamento vesical, a micção pode ser auxiliada pela pressão exercida pela musculatura abdominal e pelo diafragma fixo. No macho, a eliminação das últimas gotas ocorre por contrações rítmicas dos músculos perineais.
Manutenção do fluxo urinário
Durante a micção, receptores de fluxo localizados na uretra são ativados e enviam sinais ao tronco encefálico. Esses sinais reforçam a contração do detrusor, assegurando que o esvaziamento prossiga até que a bexiga esteja praticamente vazia.
Continência urinária
A continência é mantida pela: contração tônica do esfíncter uretral externo, sob controle voluntário; e tensão passiva dos elementos elásticos presentes na mucosa do colo vesical. Essas estruturas permitem reter a urina mesmo quando a bexiga se encontra distendida.
Papel do sistema nervoso central
À medida que a bexiga se enche, os sinais sensoriais alcançam o córtex cerebral, gerando a percepção consciente do desejo de urinar. O córtex e o cerebelo exercem controle inibitório sobre os centros de micção do tronco encefálico, impedindo a contração do detrusor até que o momento seja socialmente adequado. O nervo pudendo fornece a inervação somática do esfíncter uretral externo, possibilitando o controle voluntário da abertura e do fechamento do óstio uretral.
Notas de espécie – Aspectos comportamentais
Os padrões comportamentais e posturais durante a micção variam entre espécies domésticas, refletindo diferenças anatômicas, neurofisiológicas e sociais.
Equinos: Machos e fêmeas urinam em estação, com os membros pélvicos afastados e estendidos. Garanhões frequentemente avançam os membros torácicos para evitar respingos. Há preferência por superfícies macias e absorventes, podendo reter a urina na ausência dessas condições. Éguas podem urinar durante o estro mesmo em movimento. A urina equina é naturalmente turva e viscosa devido à presença de muco produzido por glândulas da pelve renal e ureter proximal.
Bovinos: Vacas adotam postura com cauda elevada e dorso arqueado, podendo urinar paradas ou em movimento, frequentemente logo após se levantarem. Nos machos, a anatomia curva da uretra direciona o fluxo ao solo.
Suínos: Apresentam comportamento higiênico, delimitando áreas específicas para eliminação, geralmente em cantos ou próximas a paredes, afastadas da área de descanso.Cães e gatos: Utilizam a urina como forma de marcação territorial e comunicação social. Nos machos, a porção distal da uretra é sustentada pelo osso peniano. Em neonatos, a micção é inicialmente reflexa e estimulada pela lambedura materna, passando posteriormente ao controle voluntário.