Atividade motora do trato gastrointestinal

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A atividade motora do TGI em mamíferos domésticos resulta de um conjunto altamente coordenado de contrações e relaxamentos da parede visceral, cuja finalidade é misturar, triturar e propulsionar o conteúdo luminal ao longo do tubo digestório. 


Língua

A língua é um órgão muscular complexo, situado na cavidade oral, fundamental para a preensão, manipulação do alimento, gustação e termorregulação. Do ponto de vista histológico, o corpo da língua é composto por uma massa de feixes entrelaçados de fibras musculares esqueléticas, organizadas em grupos intrínsecos (fibras longitudinais, transversais e verticais) e extrínsecos (que ancoram o órgão às estruturas ósseas adjacentes). Esses feixes são separados e sustentados por tecido conjuntivo, que forma septos e pode conter quantidade variável de tecido adiposo, contribuindo para a flexibilidade e organização estrutural do órgão. Essa organização multidirecional confere à língua a mobilidade extrema necessária para os movimentos vigorosos da mastigação e o início do reflexo de deglutição.

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A superfície lingual é revestida por uma túnica mucosa composta por epitélio estratificado pavimentoso apoiado sobre uma lâmina própria de tecido conjuntivo, que constitui o eixo das papilas linguais. Na face ventral, este epitélio é delgado, liso e não queratinizado. Já na face dorsal, o epitélio apresenta-se espesso e frequentemente queratinizado, caracterizando-se pela presença de projeções macroscópicas denominadas papilas linguais. Subjacentes à mucosa, encontram-se glândulas linguais de natureza serosa, mucosa ou mista, distribuídas difusamente ou associadas a estruturas específicas, desempenhando papel na lubrificação, na solubilização de substâncias para a gustação e na proteção local.

As papilas linguais são classificadas em mecânicas ou gustatórias. As papilas filiformes são as mais numerosas e possuem função estritamente mecânica, auxiliando na movimentação do bolo alimentar. As papilas fungiformes, valadas e foliadas abrigam os botões gustativos, estruturas em forma de barril que contêm células quimiorreceptoras (gustatórias), de sustentação e basais, comunicando-se com a superfície através de um poro gustativo. Associadas principalmente às papilas valadas, encontram-se as glândulas de von Ebner, de secreção serosa, responsáveis por lavar os sulcos papilares e permitir a renovação dos estímulos gustativos.

A inervação motora da língua é realizada pelo nervo hipoglosso (NC XII), enquanto a sensibilidade geral e o paladar são mediados pelos nervos trigêmeo (NC V), facial (NC VII), glossofaríngeo (NC IX) e vago (NC X), variando conforme a região anatômica (rostral ou caudal).

Notas de espécies

Bovinos: apresentam toro lingual e fossa lingual bem desenvolvidos. A língua é altamente muscular e atua como principal órgão de preensão, especialmente na apreensão de forragens.

Felinos: possuem papilas filiformes intensamente queratinizadas e voltadas caudalmente (papilas cônicas), associadas à raspagem de tecidos, ingestão de carne e comportamento de higiene.

Cães: utilizam a língua como importante órgão de termorregulação, favorecido por rica vascularização e presença de anastomoses arteriovenosas.

Equinos: apresentam língua longa, flexível e com grande mobilidade, atuando na seleção e manipulação do alimento durante a mastigação.

Aves: possuem língua com suporte esquelético (como o osso entoglosso), frequentemente menos móvel, e paladar reduzido, com variações relacionadas ao tipo de dieta.


Deglutição

A deglutição é um processo coordenado responsável pelo transporte do bolo alimentar da cavidade oral até o estômago, envolvendo a integração precisa de estruturas musculares, epiteliais e mecanismos neurais. Didaticamente, esse processo é dividido em três fases: oral, faríngea e esofágica. A fase oral é voluntária, enquanto as fases faríngea e esofágica são involuntárias, sendo coordenadas por centros localizados no tronco encefálico, especialmente no bulbo e na ponte.

Na fase oral, ocorre a formação, lubrificação e propulsão inicial do bolo alimentar. A língua exerce papel central nesse processo, pressionando o alimento contra o palato duro e promovendo seu deslocamento caudal por meio de movimentos coordenados de sua musculatura. A eficiência desse mecanismo depende da organização multidirecional das fibras musculares esqueléticas da língua, bem como da atuação de músculos associados ao assoalho da cavidade oral. A saliva é essencial nesse momento, pois sua composição rica em mucinas reduz o atrito entre o bolo alimentar e o epitélio estratificado pavimentoso da mucosa oral, prevenindo lesões mecânicas. Além disso, componentes como imunoglobulina A e lisozimas contribuem para a defesa local. 

A fase faríngea representa um momento crítico, pois há o cruzamento entre as vias digestória e respiratória. Essa etapa é iniciada de forma reflexa quando o bolo alimentar atinge regiões sensoriais da orofaringe, desencadeando uma sequência altamente coordenada de eventos que garantem o direcionamento seguro do alimento ao esôfago. O palato mole eleva-se, vedando a comunicação com a nasofaringe, enquanto a laringe se desloca e a epiglote atua protegendo a entrada da traqueia. Simultaneamente, ocorre uma interrupção momentânea da respiração, conhecida como apneia de deglutição. A integridade desse mecanismo depende da atuação coordenada de nervos cranianos, especialmente os nervos glossofaríngeo (IX) e vago (X), sendo essa fase particularmente sensível a alterações funcionais.

Na fase esofágica, o bolo alimentar é conduzido até o estômago por meio de ondas peristálticas coordenadas. O peristaltismo primário corresponde à continuidade da onda iniciada na faringe, enquanto o peristaltismo secundário é desencadeado localmente pela distensão da parede esofágica, garantindo a progressão do conteúdo em caso de retenção. Esse controle envolve tanto mecanismos centrais quanto o sistema nervoso entérico. Um aspecto importante da histofisiologia esofágica é a variação na composição da musculatura ao longo do órgão e entre espécies. Em cães e ruminantes, a túnica muscular externa é composta predominantemente por musculatura estriada esquelética em toda a extensão, o que permite maior controle voluntário e, no caso dos ruminantes, viabiliza a regurgitação durante a ruminação. Em equinos e felinos, há uma transição de musculatura estriada na porção proximal para musculatura lisa na porção distal. Na região de transição com o estômago, o relaxamento do esfíncter esofágico inferior é fundamental para a passagem do bolo alimentar, sendo mediado por neurotransmissores como o óxido nítrico e o peptídeo intestinal vasoativo.

Disfagia: quando o mecanismo falha

A disfagia corresponde à dificuldade na deglutição e pode resultar de alterações em diferentes etapas do processo. Na fase oral, falhas na formação ou propulsão do bolo alimentar estão frequentemente associadas a alterações na mobilidade da língua ou na produção salivar. Na fase faríngea, disfunções na coordenação dos mecanismos de proteção das vias aéreas aumentam o risco de aspiração, especialmente em casos de comprometimento dos nervos cranianos envolvidos. Já na fase esofágica, alterações na motilidade podem levar à retenção do alimento, como ocorre em distúrbios que afetam a condução peristáltica. Além disso, regiões de estreitamento fisiológico do esôfago constituem pontos predispostos à obstrução por corpos estranhos. Na transição entre o esôfago e o estômago, a perda da competência do esfíncter esofágico inferior favorece o refluxo do conteúdo gástrico, podendo causar lesões no epitélio esofágico, que apresenta menor resistência a variações de pH.


Bases histológicas da motilidade gastrointestinal

Quando a passagem do bolo alimentar (e, progressivamente, seus derivados), a motilidade gastrointestinal é executada predominantemente por meio de músculo liso em arranjo do tipo unitário, o que determina contrações lentas, sustentadas e sincronizadas.

Organização do músculo liso visceral

As fibras musculares lisas do TGI organizam-se em feixes celulares interconectados por junções comunicantes (gap junctions). Essas junções permitem a passagem de íons entre células adjacentes, possibilitando que a despolarização elétrica se propague rapidamente por extensas áreas da parede muscular. Como resultado, o tecido comporta-se como um sincício funcional, no qual a contração ocorre de maneira coordenada.

Na maior parte do TGI, a túnica muscular apresenta duas camadas bem definidas:

  • Camada circular interna, cuja contração reduz o diâmetro do lúmen;
  • Camada longitudinal externa, responsável pelo encurtamento do segmento intestinal.

No estômago, há ainda uma camada oblíqua interna, que amplia a capacidade de deformação da parede e contribui para movimentos mais complexos de mistura.

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Essa disposição estrutural é fundamental para a geração de diferentes padrões motores, pois cada camada contribui de forma específica para a modulação do diâmetro e do comprimento do segmento digestório.

Células intersticiais de Cajal

Entre as camadas musculares e associadas ao plexo nervoso entérico encontram-se as células intersticiais de Cajal (ICC). Essas células formam uma rede funcional que atua como marcapasso do TGI, sendo responsável pela geração da atividade elétrica basal. A localização estratégica das ICC permite que os sinais elétricos sejam transmitidos tanto ao músculo liso quanto aos neurônios entéricos, integrando os componentes estruturais da parede intestinal.

Sistema nervoso entérico

O Sistema Nervoso Entérico (SNE) constitui uma rede intrínseca de neurônios distribuídos na parede do TGI, capaz de coordenar a motilidade de forma relativamente independente do sistema nervoso central. Histologicamente, o SNE organiza-se em dois plexos principais:

  • Plexo Mioentérico (Auerbach): Localizado entre as camadas circular e longitudinal da túnica muscular, está diretamente associado ao controle motor, regulando o tônus basal e a intensidade das contrações musculares.
  • Plexo Submucoso (Meissner): Situado na submucosa, atua principalmente em funções locais, incluindo a modulação da motilidade da mucosa por meio da lâmina muscular da mucosa.

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A posição anatômica desses plexos reflete suas funções: o plexo mioentérico, intimamente relacionado ao músculo, exerce papel central na motilidade global, enquanto o plexo submucoso influencia ajustes mais finos e regionais.


Mecanismos Fisiológicos da Atividade Motora

A contração do músculo liso gastrointestinal depende da interação entre fenômenos elétricos intrínsecos e modulação neurócrina promovida pelo SNE.

Ondas lentas e ritmo elétrico básico

As ondas lentas, também denominadas ritmo elétrico básico, são oscilações rítmicas e espontâneas do potencial de membrana geradas pelas ICC. Essas oscilações não correspondem, em geral, a potenciais de ação e, isoladamente, não produzem contração muscular significativa (com exceção do estômago). Sua principal função é definir a frequência máxima com que o músculo pode se contrair, estabelecendo o ritmo básico da motilidade em cada segmento do TGI.

Potenciais em pico e contração muscular

Quando a despolarização da onda lenta atinge o limiar de excitação, aproximadamente -40 mV, surgem os potenciais em pico (spikes), que são verdadeiros potenciais de ação. Esses potenciais promovem a entrada de Ca²⁺ nas fibras musculares lisas, desencadeando o mecanismo contrátil. A quantidade de spikes gerados durante uma onda lenta está diretamente relacionada à força da contração, evidenciando o vínculo entre atividade elétrica e resposta mecânica.

Modulação neurócrina pelo sistema nervoso entérico

A atividade elétrica basal é modulada por neurotransmissores liberados por neurônios do SNE, ajustando a excitabilidade do músculo liso conforme as necessidades funcionais:

  • Neurotransmissores excitatórios, como a acetilcolina e a substância P, promovem despolarização da membrana, aumentando a frequência de potenciais em ponta e intensificando a contração.
  • Neurotransmissores inibitórios, como o óxido nítrico (NO) e o peptídeo intestinal vasoativo (VIP), causam hiperpolarização da membrana, reduzindo a probabilidade de geração de spikes e favorecendo o relaxamento muscular.

Organização estrutural e padrões motores do TGI

A interação entre a disposição das camadas musculares e a coordenação exercida pelo SNE resulta em padrões motores específicos, adequados às diferentes fases da digestão.

Segmentação

A segmentação é um padrão motor caracterizado por contrações rítmicas e localizadas, predominantemente da camada muscular circular. Essas contrações dividem o conteúdo presente no lúmen do TGI em segmentos, promovendo intensa mistura com secreções digestivas e aumentando o contato com a mucosa, sem deslocamento significativo do conteúdo ao longo do trato. A estrutura circular do músculo é essencial para esse efeito de “estrangulamento” local do lúmen.

Propulsão

Neste padrão, ocorre contração da camada circular oralmente ao conteúdo do segmento, acompanhada de relaxamento aboral, enquanto a camada longitudinal contribui para o encurtamento do segmento. Essa coordenação direcional depende da integração entre músculo liso, ICC e plexo mioentérico.

Retropulsão gástrica

No estômago distal, especialmente na região do antro, as ondas peristálticas deslocam o conteúdo em direção ao piloro, que permanece funcionalmente fechado. Esse arranjo estrutural resulta na retropulsão gástrica, na qual o conteúdo é forçado de volta ao corpo do estômago, favorecendo sua trituração e mistura. A presença da camada oblíqua contribui para a complexidade desses movimentos.

Complexo motor migrante

Durante o estado de jejum, ocorre o Complexo Motor Migrante (CMM), composto por ondas peristálticas intensas que percorrem o estômago e o intestino delgado. Esse padrão motor depende da organização contínua do músculo liso ao longo do TGI e atua como um mecanismo de “varredura”, removendo resíduos indigeríveis.

Contrações tônicas

Em regiões especializadas, como os esfíncteres esofágico inferior, pilórico, ileocecal e anal interno, predominam contrações tônicas mantidas por períodos prolongados. Essas contrações resultam do tônus sustentado do músculo liso e são essenciais para isolar compartimentos do TGI e prevenir refluxo, demonstrando novamente a adequação da estrutura muscular à função exercida.

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