Glândulas acessórias do aparelho digestório

Atenção: o conteúdo deste site pertence à Universidade Federal de Viçosa.


As glândulas acessórias do sistema digestório dos mamíferos domésticos são órgãos anatomicamente separados da parede do tubo digestório, mas funcionalmente integrados a ele. Suas secreções alcançam o lúmen do trato gastrointestinal por meio de ductos excretores, desempenhando papel essencial na digestão química, na proteção das mucosas e na manutenção de condições adequadas ao funcionamento enzimático. 


Glândulas Salivares

As glândulas salivares são glândulas tubuloacinares compostas, organizadas em lóbulos delimitados por septos de tecido conjuntivo que conduzem vasos sanguíneos, nervos e ductos maiores. O parênquima glandular é constituído por ácinos e por um sistema hierárquico de ductos (intercalares, estriados e excretores), cuja disposição favorece a modificação progressiva da secreção.

Os ácinos representam as unidades secretoras e podem ser:

  • Serosos, com células ricas em grânulos proteicos e secreção fluida;
  • Mucosos, com citoplasma claro e secreção viscosa rica em mucina;
  • Mistos, combinando ambos os tipos celulares.

As células mioepiteliais, localizadas entre a lâmina basal e as células secretoras, possuem capacidade contrátil, auxiliando mecanicamente na expulsão da saliva para os ductos, o que otimiza o fluxo secretório durante a estimulação glandular.

A saliva é composta predominantemente por água, associada a eletrólitos (como bicarbonato e fosfato), mucina, imunoglobulina A (IgA), lisozimas e, em algumas espécies, enzimas digestivas como alfa-amilase e lipase lingual. Essa composição reflete a especialização histológica das células acinares.

Do ponto de vista funcional, a saliva promove:

  • Lubrificação e umedecimento do alimento, facilitando mastigação e deglutição;
  • Proteção da mucosa oral, por meio de componentes antibacterianos;
  • Percepção do paladar, ao solubilizar agentes gustativos;
  • Início da digestão química, em espécies que produzem enzimas salivares;
  • Em ruminantes, exerce papel fundamental no tamponamento do pH ruminal, devido à alta concentração de bicarbonato, além de ser a fonte de água para os pré-estômagos.

Pâncreas

O pâncreas é uma glândula encapsulada e lobulada, caracterizada por sua natureza mista, com componentes exócrinos e endócrinos funcionalmente distintos, porém intimamente associados no tecido.

A porção exócrina, que representa a maior parte da massa pancreática, é formada por ácinos serosos compostos por células acinares piramidais, ricas em grânulos de zimogênio. Uma característica histológica marcante é a presença das células centroacinares, localizadas no interior dos ácinos e contínuas com os ductos intercalares. Uma célula centroacinar é uma célula epitelial pequena e pálida que marca o início do sistema de ductos no pâncreas exócrino. Localizada no lúmen dos ácinos pancreáticos, ela atua na secreção de um fluido rico em bicarbonato sob estímulo da secretina, essencial para neutralizar o quimo ácido no duodeno. Além de sua função secretora, destaca-se na histologia por seu potencial como célula progenitora em processos de regeneração tecidual.

A porção endócrina é constituída pelas ilhotas pancreáticas (ou de Langerhans), aglomerados celulares dispersos entre os ácinos exócrinos e diretamente associados à circulação sanguínea, o que permite liberação hormonal eficiente.

A secreção exócrina pancreática, denominada suco pancreático, contém:

  • Bicarbonato de sódio, produzido principalmente pelas células ductais;
  • Enzimas digestivas, incluindo amilases, lipases e proteases secretadas na forma inativa (como o tripsinogênio).

O bicarbonato desempenha papel essencial na neutralização do quimo ácido proveniente do estômago, criando um ambiente luminal adequado para a atividade enzimática no duodeno. As enzimas pancreáticas realizam a digestão química de carboidratos, lipídeos e proteínas.

A porção endócrina do pâncreas secreta hormônios como insulina e glucagon, que atuam na regulação do metabolismo da glicose, demonstrando a integração funcional do pâncreas com a homeostase energética do organismo.


Fígado

O fígado é a maior glândula do organismo e apresenta organização histológica em lóbulos hepáticos de formato aproximadamente hexagonal. No centro de cada lóbulo localiza-se a veia central (ou centrolobular), enquanto na periferia encontram-se as tríades portais, compostas por um ramo da veia porta, um ramo da artéria hepática e um ducto biliar.

Os hepatócitos organizam-se em placas ou cordões celulares dispostos radialmente em relação à veia central. Entre essas placas encontram-se os sinusoides hepáticos, capilares de parede descontínua que facilitam as trocas metabólicas entre o sangue e os hepatócitos. Associadas aos sinusoides estão as células de Kupffer, macrófagos fixos responsáveis pela vigilância e remoção de partículas e detritos.

A principal secreção exócrina do fígado é a bile, produzida continuamente pelos hepatócitos. A bile é composta por sais biliares, colesterol, fosfolipídeos, pigmentos biliares, eletrólitos e água, sendo conduzida pelos ductos biliares até o intestino delgado.

Os sais biliares são fundamentais para a emulsificação das gorduras, aumentando a superfície de contato para a ação das lipases e permitindo a absorção eficiente de lipídeos e vitaminas lipossolúveis.

Além disso, o fígado exerce funções centrais no processamento metabólico dos nutrientes absorvidos, no armazenamento de glicogênio e vitaminas, na síntese de proteínas plasmáticas e na destoxificação de substâncias. As células de Kupffer complementam essas funções ao promoverem a depuração do sangue portal, reforçando a integração entre estrutura histológica e função fisiológica hepática.