Atenção: o conteúdo deste site pertence à Universidade Federal de Viçosa.
A atividade secretora do trato gastrointestinal (TGI) em mamíferos domésticos resulta da organização integrada entre glândulas exócrinas e células especializadas da mucosa, cuja disposição estrutural determina diretamente o tipo, a intensidade e o momento das secreções produzidas. Ao longo do TGI, essa organização cria um ambiente luminal progressivamente modulado, no qual água, íons, enzimas e muco são liberados de forma coordenada para viabilizar o processamento do alimento, desde sua transformação inicial até a preparação para absorção.
Glândulas gástricas
O epitélio de revestimento do estômago é classificado como epitélio simples colunar mucossecretor, formado predominantemente por células mucosas superficiais, organizadas de modo contínuo desde a superfície luminal até o interior das fossetas gástricas, sem apresentar células caliciformes em condições normais.
No estômago, as glândulas gástricas localizam-se na lâmina própria e se abrem no lúmen por meio das fossetas gástricas. Embora sejam classificadas como glândulas tubulares simples, sua organização varia conforme a região (cárdica, fúndica e pilórica), e essa variação expressa adaptações funcionais específicas ao longo do órgão.
As glândulas cárdicas são mais curtas, podendo ser ramificadas e frequentemente enoveladas, e compostas predominantemente por células mucosas, cuja secreção de muco contribui para a proteção da transição entre o esôfago e o estômago, onde o epitélio passa a ser exposto a um ambiente progressivamente ácido.
As glândulas fúndicas (ou oxínticas) atingem maior complexidade estrutural, sendo organizadas em istmo, colo e base, com distribuição característica de células especializadas. As glândulas dessa região são densamente compactadas de forma que a lâmina própria é de difícil visualização. No colo, encontram-se numerosas células secretoras de muco e células-tronco que, ao se dividirem e diferenciarem, promovem a renovação tanto do epitélio superficial quanto das porções mais profundas das glândulas. No corpo, há elevada concentração de células parietais, cuja morfologia é caracterizada por extensos canalículos intracelulares com microvilosidades, que ampliam significativamente a superfície de membrana disponível para transporte iônico, sustentando a secreção intensa de ácido clorídrico e a produção de fator intrínseco. Essa especialização estrutural sustenta diretamente a acidificação do conteúdo luminal, condição essencial para a desnaturação de proteínas e ativação enzimática. As células parietais são facilmente reconhecidas na microscopia de rotina por seu grande volume celular e citoplasma fortemente eosinofílico. Na base das glândulas, predominam as células principais, cujo citoplasma é rico em retículo endoplasmático rugoso, refletindo sua função na síntese e secreção de pepsinogênio. Esse zimogênio, ao ser exposto ao ambiente ácido previamente estabelecido, é convertido em pepsina ativa. Assim, a própria disposição espacial dessas células organiza uma sequência funcional na qual a acidificação precede e viabiliza a digestão proteica.
Na região pilórica, por sua vez, as glândulas tornam-se mais ramificadas e apresentam predomínio de células mucosas, com menor número de células parietais e principais. Essa organização reflete uma transição funcional, na qual a secreção passa a enfatizar a produção de muco e de mediadores regulatórios, contribuindo tanto para a proteção da mucosa quanto para o controle da atividade secretora gástrica.
Paralelamente, ao longo de toda a mucosa gástrica, as células mucosas superficiais produzem muco associado ao bicarbonato, formando uma barreira protetora que recobre o epitélio e permite que a secreção ácida ocorra sem comprometer a integridade tecidual, evidenciando a coexistência de microambientes funcionais distintos dentro do mesmo órgão.
As células enteroendócrinas do estômago constituem um grupo heterogêneo de células epiteliais especializadas, dispersas ao longo das glândulas gástricas, com maior concentração nas regiões profundas das glândulas oxínticas e nas glândulas pilóricas. Caracterizam-se por liberar seus produtos de secreção predominantemente pelo polo basal, atuando por vias parácrinas e endócrinas na regulação da atividade gástrica. Entre os principais tipos, destacam-se as células G, produtoras de gastrina (predominantes no antro pilórico), as células D, secretoras de somatostatina, e as células ECL (enterochromaffin-like), produtoras de histamina no corpo/fundo gástrico. Esses mediadores regulam de forma integrada a secreção de ácido clorídrico pelas células parietais, bem como a motilidade e a função digestiva, estabelecendo um sistema de controle fino que ajusta a atividade do estômago às condições do conteúdo luminal.
Glândulas intestinais
Ao deixar o estômago e alcançar o duodeno, o quimo ácido encontra um ambiente estrutural e funcionalmente distinto, no qual a organização da parede intestinal permite sua rápida neutralização e adaptação às etapas subsequentes da digestão. Nesse contexto, o duodeno atua como uma zona de transição crítica, integrando secreções próprias com aquelas provenientes do pâncreas e do fígado.
As glândulas duodenais (ou de Brunner), localizadas na submucosa do duodeno proximal, são glândulas tubuloacinares ramificadas cujos ductos atravessam a lâmina muscular da mucosa e desembocam na base das criptas intestinais. Essa disposição anatômica posiciona sua secreção alcalina diretamente no ponto de entrada do quimo, permitindo a neutralização imediata da acidez.
A produção de bicarbonato, associada à secreção de muco, protege o epitélio intestinal e estabelece um pH adequado para a ação das enzimas digestivas, especialmente aquelas de origem pancreática, que dependem de um meio menos ácido para sua atividade. Além disso, essas glândulas produzem fatores como a urogastrona, que contribuem para a inibição da secreção gástrica, evidenciando uma comunicação funcional entre o intestino e o estômago.
No intestino delgado e no intestino grosso, as glândulas intestinais são representadas pelas criptas de Lieberkühn, que correspondem a invaginações tubulares simples do epitélio, estendendo-se da base das vilosidades (quando presentes) até a lâmina muscular da mucosa. No intestino delgado, sua disposição entre as vilosidades permite que a secreção ocorra em estreita associação com a superfície absortiva, mantendo o conteúdo luminal fluido e favorecendo a difusão e absorção de nutrientes. No intestino grosso, onde vilosidades estão ausentes, as criptas tornam-se mais longas, retilíneas e densamente distribuídas, refletindo a adaptação a um conteúdo progressivamente mais desidratado.
A organização celular das criptas revela um gradiente funcional ao longo de sua extensão:
Enterócitos: participam da secreção de íons, especialmente cloreto, cuja movimentação osmótica promove a entrada de água no lúmen, contribuindo para a hidratação do conteúdo intestinal.
Células caliciformes: aumentam em número em direção aos segmentos distais, acompanhando a necessidade crescente de lubrificação. Seu acúmulo de mucina no polo apical está diretamente relacionado à secreção de muco, que protege a mucosa e facilita o trânsito do conteúdo.
Células de Paneth: localizadas na base das criptas (particularmente evidentes em algumas espécies domésticas), secretam substâncias antimicrobianas, como lisozima e defensinas, contribuindo para o controle da microbiota intestinal.
Células-tronco: também localizadas na base das criptas, são responsáveis pela renovação contínua do epitélio intestinal.
Células enteroendócrinas: dispersas ao longo das criptas, participam da regulação local e sistêmica da digestão por meio da liberação de hormônios.