Estrutura e função geral das glândulas endócrinas e dos hormônios

A endocrinologia é o estudo do sistema endócrino, uma rede de comunicação química que integra e coordena a atividade celular em todo o organismo. Por meio de seus mediadores, os hormônios, esse sistema regula processos essenciais como crescimento, metabolismo, reprodução, resposta ao estresse e manutenção da homeostasia.

O sistema endócrino funciona de maneira integrada com os sistemas nervoso e imune, formando um conjunto regulatório capaz de ajustar o funcionamento dos órgãos frente às demandas internas e externas.

Hormônios: Natureza e função

Os hormônios são mensageiros químicos liberados pelas glândulas endócrinas diretamente na corrente sanguínea, por onde alcançam os tecidos-alvo. O termo “hormônio” origina-se do grego hormán, que significa “pôr em movimento”, refletindo sua função de ativar, modular ou inibir processos fisiológicos.

De acordo com sua estrutura química, os hormônios são classificados em três grupos:

  1. Peptídicos e proteicos: Compostos por aminoácidos e geralmente hidrossolúveis. A maioria atua por meio de receptores localizados na superfície da membrana celular.
  2. Esteroides: Derivados do colesterol e lipossolúveis, atravessam facilmente as membranas celulares. Incluem glicocorticoides, mineralocorticoides e hormônios sexuais.
  3. Derivados de aminoácidos: Provenientes principalmente da tirosina, como os hormônios tireoidianos e as catecolaminas.

Síntese, armazenamento e secreção

O processo de produção e liberação hormonal depende diretamente da natureza química da molécula:

Hormônios Peptídicos/Proteicos

São sintetizados inicialmente como moléculas precursoras, processadas e refinadas no retículo endoplasmático e no complexo de Golgi até atingirem a forma biologicamente ativa. Depois disso, são armazenados em vesículas secretoras, prontas para serem liberadas por exocitose em resposta a estímulos específicos, como aumento de cálcio intracelular ou ativação de segundos mensageiros.

Hormônios Esteroides

Produzidos a partir do colesterol por vias enzimáticas que ocorrem nas mitocôndrias e no retículo endoplasmático. Ao contrário dos hormônios peptídicos, não são armazenados. Assim que sintetizados, atravessam livremente a membrana e são liberados para a circulação. O colesterol necessário pode estar disponível no meio intracelular em forma de estoques.

Transporte no sangue

A solubilidade do hormônio determina como ele será transportado:

  • Hormônios peptídicos: Sendo hidrossolúveis, circulam principalmente livres no plasma.
  • Hormônios esteroides e tireoidianos: Lipossolúveis, circulam ligados a proteínas transportadoras plasmáticas. Essa ligação funciona como um reservatório, prolongando sua meia-vida e modulando a disponibilidade biológica.

Ação hormonal e receptores

A ação de um hormônio depende da presença de receptores específicos nas células-alvo. Como são distribuídos por todo o corpo, uma vez que sua via de transporte é pelo sangue, as células ou tecidos alvo de um hormônio são aqueles que expressam seu receptor. A quantidade desses receptores pode variar amplamente, influenciando a sensibilidade celular.

Existem dois grandes grupos de receptores hormonais:

Receptores de membrana

Utilizados por hormônios peptídicos e proteicos. O hormônio liga-se ao receptor localizado na superfície celular, ativando sistemas de segundos mensageiros (como AMPc ou Ca²⁺). As respostas são geralmente rápidas, envolvendo alterações em vias metabólicas ou abertura/fechamento de canais iônicos.

Receptores intracelulares

Utilizados por hormônios lipossolúveis, como esteroides e hormônios tireoidianos. Esses hormônios atravessam a membrana, ligam-se a receptores no citoplasma ou diretamente no núcleo e atuam modulando a expressão gênica. Essas respostas são mais lentas, pois dependem da síntese de novas proteínas.

Regulação da atividade endócrina

O organismo mantém níveis hormonais dentro de limites estreitos por meio de mecanismos de retroalimentação:

Feedback Negativo

É o mecanismo mais comum. O hormônio final de uma via, ou a resposta fisiológica resultante, inibe etapas anteriores daquela via. Esse processo evita excessos e mantém a estabilidade interna.

Feedback Positivo

Menos frequente, amplifica um estímulo inicial. O exemplo clássico ocorre no ciclo reprodutivo de fêmeas, quando níveis elevados de estrogênio aumentam a liberação de LH, desencadeando a ovulação. Apesar de intenso, é um mecanismo temporalmente limitado.

Ritmos Biológicos

A secreção hormonal não é contínua: muitos hormônios são liberados de forma pulsátil, com variação conforme ciclos diários (circadianos), sazonais, reprodutivos ou etários. Esses ritmos refletem a forte integração entre o sistema endócrino e estruturas neurais reguladoras, especialmente o hipotálamo.

Eixos endócrinos

Os eixos endócrinos são sistemas de comunicação hormonal organizados em cadeia, nos quais diferentes níveis de produção e liberação de hormônios se conectam para coordenar funções vitais do organismo. Eles representam uma forma altamente integrada de controle fisiológico, envolvendo interação constante entre o sistema nervoso central, o sistema endócrino e, em muitos casos, o sistema imune.

Organização em três níveis

Os eixos endócrinos seguem um padrão estrutural clássico de três níveis, cada qual exercendo controle sobre o seguinte:

  • Nível superior (Neuro-hormonal):
    O controle começa no hipotálamo, que funciona como um centro integrador capaz de receber informações do ambiente interno (como temperatura, osmolaridade, estado metabólico) e externo (como luz, estresse, ameaça). O hipotálamo secreta hormônios liberadores nos vasos portais que o conectam à hipófise. Esses neuro-hormônios ajustam a atividade das células hipofisárias.
  • Nível intermediário (Hipofisário):
    A adeno-hipófise responde aos hormônios liberadores produzindo hormônios tróficos (ou estimulantes). Esses hormônios, em sua maioria peptídicos, são responsáveis por regular a função das glândulas endócrinas periféricas.
  • Nível periférico (Glandular):
    Os hormônios tróficos estimulam glândulas e células endócrinas periféricas, como tireoide, adrenais e gônadas, a produzirem o hormônio final, responsável pela resposta fisiológica de interesse.

Essa organização sequencial garante amplificação, precisão e capacidade de ajuste fino na comunicação hormonal.

Exemplos de eixos endócrinos

  • Eixo Hipotálamo–Pituitária–Adrenal (HPA):
    Controla a resposta ao estresse. O hipotálamo libera CRH → a hipófise secreta ACTH → a adrenal libera glicocorticoides (como o cortisol). Os glicocorticoides inibem tanto o CRH quanto o ACTH, fechando o circuito de feedback negativo.
  • Eixo Hipotálamo–Pituitária–Gonadal (HPG):
    Regula a função reprodutiva. Inclui hormônios como GnRH, LH, FSH, estrogênios, progesterona e testosterona, todos integrados por mecanismos finos de retroalimentação.

Outros eixos clássicos incluem o HPT (hipotálamo–pituitária–tireoide) e o HGH/IGF-1 (hormônio do crescimento e fatores de crescimento).